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Psicanálise - Paulo Sternick

Entrevista polêmica

Teresópolis, 12 de março de 2010

A repórter da bela cidade paulista de São José do Rio Preto quis saber o que eu quis dizer com a afirmação de que “há quem não possa amar”, feita em recente artigo. Respondi assim: Bem, “eu não quis dizer”: eu disse isso mesmo. Aliás, quem, na verdade, o disse foram os seres humanos, sobre os quais não tenho a menor jurisprudência. Sou um modesto intérprete ou analisador. Ao longo da História, percebemos que somos tão capazes de amar e construir quanto talentosos para odiar e destruir. Nos indivíduos, notamos que a capacidade de amar pode não estar dada, aliás, é mais provável que prevaleçam o egoísmo, o narcisismo ou a indiferença. Isto não é simpático dizer, mas eu não sou relações públicas, nem trabalho com marketing. Sou um simples psicanalista, pensador das verdades humanas, uma tarefa fora de moda na atualidade.

De fato, a capacidade de amar é  fruto de um trabalho de superação do próprio egoísmo, narcisismo e voracidade. A capacidade de amar precisa ser esculpida, para superar os bloqueios e evitar, por outro lado, que se converta inversamente em subserviência ou outra coisa parecida com amor. Muitas pessoas não conseguem atingir o estado do amor. Seja por uma disposição inata, seja por defesa contra o sofrimento, seja por incapacidade de gratidão. Mas, felizmente, para que não se confunda realismo com amargura, cruzamos também com gente generosa, construtiva e com muito amor no coração. E com outras - onde prevalece o realismo em detrimento da ilusão – em quem o amor e desamor travam uma dura e interminável batalha.

Ela também perguntou se em minha experiência, identifiquei algumas pessoas com patologias mesmo, que as impedisse de se relacionar? Conheci e venho conhecendo pessoas de todos os tipos, cada pessoa é muito singular, ela tem uma “impressão psíquica”, tal como tem sua impressão digital. Na psicanálise, temos a chance de poder conversar longamente sobre isso na sala de atendimento. Eu peço para conversar comigo sobre tudo o que se passa na sua mente enquanto ela está lá. Meu interesse é a personalidade humana, tal qual emerge numa sessão de análise, não é o caso de fazer julgamento moral ou de valor. Afinal, para isso temos a Justiça, a Religião, enfim, outras instâncias. A capacidade de se relacionar pode ser perturbada por múltiplos fatores, só uma análise pode tratar de casos mais delicados. Observo há 35 anos full time no consultório que todos têm uma ânsia grande de vínculo, mesmo quando não desejam, paradoxalmente, abrir mão daquilo que os impedem de te-los, ou mesmo quando não conseguem superar os problemas que os inibem.

Em certo momento, parecendo traduzir uma preocupação pessoal, indagou: “Como posso demonstrar amor por alguém que, nitidamente, não sabe o que quer; e mesmo já tendo recebido a confirmação de que é amado, não consegue se decidir sobre com quem quer estar? Em que reside a necessidade de se continuar a amar alguém que não sabe do nosso amor e tampouco é capaz de retribuir o afeto por incapacidade de amar a si próprio?” No momento, ocorreu-me a seguinte resposta: É muito difícil amar realmente alguém que está assim dividido ou fragmentado: qual pedaço você vai amar? É preciso pensar se está dando novo nome ao masoquismo. Amar sem ser amado é pagar algum pecado. Sabe, para casar com alguém é preciso estar casado inicialmente consigo mesmo, no sentido de integrar as partes. Este movimento é centrípeto, a força para dentro, para a integração. Juntar as partes. Jamais só amamos a pessoa: sentimos também o desamor, a dúvida, até o ódio. Tudo isto deve estar junto quando se resolve ficar com alguém. O personagem citado quer dividir tudo isso: pegar um bom daqui, outro bom dali, separar e desprezar o ruim de todos. Mas ele pode servir como amante, amigo, ou analisando - pelo menos por enquanto. Na vida, só não muda quem já morreu.

Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis. Escreve no DIARIO aos sábados. E-mail: psternick@rjnet.com.br  Colunas anteriores podem ser lidas aqui. Veja: Dinheiro selvagem