O encanto e a mística do primeiro amor ocupam corações e mentes de muitas pessoas. Imprime em sua lembrança um modelo de felicidade ideal difícil de esquecer. Longe de ser apenas primeiro balbucio na educação sentimental, estágio inicial do rico e variado percurso dos desejos e destinos amorosos, o primeiro amor é guardado como objeto digno de veneração.
Não seria problema se fosse apenas uma carinhosa recordação da primeira vez em que nos apaixonamos e tivemos a quente experiência da intimidade amorosa. Muitos, porém, sofrem de fixação pelas primeiras paixões a ponto de não conseguirem estabelecer novos vínculos. A célebre canção de Kid Abelha diz: “Fixação, seus olhos no retrato/ fixação, minha assombração.”
Uma viva imagem dessa lembrança nos vem do filósofo francês René Descartes.(1596-1650). Ele teve seu primeiro amor muito jovem, por uma garota de sua idade, vesga. Ao mirar seus olhos incertos, a imagem deles e a experiência do amor se fundiram de tal maneira que, durante sua vida, ele se inclinou a amar mais as pessoas vesgas, sem consciência de que o fazia movido por esse primeiro e ardente amor. O fascínio de Descartes corresponde ao encanto de cada um de nós por detalhes do primeiro ser amado: reúnem tudo o que ele representa, quase um ícone. Não apenas o corpo, mas a alma.
É provável que o primeiro amor seja, ele próprio, uma lembrança de nosso intenso amor vivido junto aos pais. Espécie de renascimento dos fortes afetos, passa a ser vivenciado com uma pessoa diferente, encontrada ao acaso no mundo, e que nos reconhece como alguém gostável. A percepção de algum traço físico ou modo de pensar, um nada qualquer, arranca então emoções primitivas carregadas de ilusão,estimula esperanças e acena com um paraíso messiânico: vem à lembrança os melhores momentos de amores infantis junto aos pais.
Podemos até esquecer nosso primeiro amor, mas ele não nos esquece jamais. Persegue-nos dentro de nós, como um fantasma invisível. E assim, sem que o saibamos, dita novas (novas?) escolhas ou recusa alternativas. E transforma-se em tema de canções, poesias, provérbios, filmes.
O escritor argentino Jorge Luis Borges fez certa vez uma bela afirmativa: “O amor exige provas sobrenaturais.” Acho que ele quis dizer o seguinte: o sentimento amoroso é algo que não pode ser descrito em razão de sua natureza, força e beleza. Aos olhos alheios, o objeto de nosso amor não desperta qualquer emoção. Para o apaixonado, no entanto, ele é único, além do físico, além da razão -- sobrenatural. O próprio Borges viveu sua experiência: “O primeiro amor (ideal, é claro) de minha vida foi uma atriz, a americana Ava Gardner. Via seus filmes duas vezes por dia. Logo que a sessão terminava, desejava a chegada do dia seguinte para voltar a vê-la.” Nesse caso extremo, já imaginaram se ele continuasse fixado na atriz?
A presença do primeiro amor, claro, só é problemática quando se tratou de um amor ilusório, ou não deu certo e não tem chances de volta -- porque há casos raros em que tem êxito. A psicanálise nos ensina que a fixação em pessoas inadequadas é indício de obstáculo no desenvolvimento amoroso (talvez por rejeição da mãe, do pai, ou de violência). Tanto pode ocorrer porque o passado foi muito satisfatório, e a pessoa não o quer perder, ou porque traumático -- o incrível é que também queremos repetir o ruim.
Quando os fatores que causam a fixação não foram esclarecidos, levam à repetição das escolhas mesmo que envolvam sofrimento. É possível, então, que a pessoa tenha comportaments infantis. Ou que se torne drogada, alcoólica, violenta. De qualquer forma, sua energia disponível sofre limitação por causa do investimento no objeto passado.
É importante termos consciência desses fenômenos. Ao pensar nos primórdios do desejo e dos destinos que tiveram, compreendendo-os, empurramos a carruagem da vida. Escapamos assim que fique rodando em círculos, em busca dos fantasmas desaparecidos.
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