Psicanálise - Paulo Sternick
 
Dr. Paulo Sternick

Psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis. Editor-cientifico de Gradiva e membro da Société Internationale d'Histoire de la Psychiatrie et de la Psychanalyse. Escreve no DIARIO DE TERESÓPOLIS aos sábados e para a Revista CARAS.

E-mail: psternick@rjnet.com.br

 

 
O amor distraido
 

Há uma nova solidão, um estranho tédio surgindo no coração dos casais: o de ver ele, ou ela, tão absorvidos em suas próprias atividades, que é quase como se esquecessem, em muitos momentos, que o par existe. De fato, o amor na modernidade vem sofrendo dura disputa de inesperados concorrentes. Até as disputas de futebol – afinal, vivemos numa cultura esportiva - provocam abalos sísmicos em alguns casais que acompanho no consultório! Explico-me: o apetite dele, ou dela, de acompanhar o maior número de jogos e competições deixou o outro - não tão interessado assim em esportes - com o sentimento de estar sendo abandonado, enfim, de não ser tão importante. E, na verdade, também em outros momentos, futebol, tv a cabo, internet, mundo das finanças e tantos outros interesses e estímulos que existem hoje – sem contar as tarefas do trabalho trazidas para casa – absorvem as pessoas de tal maneira que elas podem acabar, caso não se dêem conta disto, quase inteiramente extraviadas do contato humano. Até de quem lhes dedica, e espera, amor e companhia.

Esta situação, vivida por um sem número de pares, faz parte de um fenômeno mais amplo da atualidade, que experimenta intensificação do individualismo liberal e do egoísmo, em prejuízo de atitudes sociais, solidárias e afetivas. Será a subjetividade contemporânea avessa a um amor real? Ou produtora de indivíduos narcisistas, apressados, intolerantes, voltados para os prazeres imediatos sem compromisso: tão competentes nos afazeres profissionais quanto inadequados para a relação afetiva? A sociologia e a psicanálise vêm trabalhando neste novo tipo de homem ou de mulher que surge nestes novos e inquietantes tempos. Mesmo quando eles têm um namoro prolongado ou se casam, este conflito causado pelo individualismo tornou-se uma das grandes armadilhas da união. Porém, se ambos têm sua atenção igualmente capturada por seus respectivos afazeres, mas não perdem o foco no vínculo amoroso, isto pode ser estimulante para ambos, e até servir de preventivo contra o desgaste da relação. Mas nunca se pode esquecer que toda relação estável é instável.

Se por acaso ele ou ela está sempre na dependência de seu “amor”, sem desenvolver alternativas para sua própria vida, algo ali precisa ser estimulado para que um novo equilíbrio seja reconquistado É preciso se lembrar, além disso, que o outro pode ser, aqui e ali, incluído nos interesses de cada um. Seja comunicando e trocando idéias sobre o que se está fazendo, seja envolvendo ambos em atividades conjuntas. Mas é claro que isto esbarra no limite da individualidade de cada um, pois, a partir de um certo ponto, as pessoas precisam realmente ficar absorvidas em suas próprias ocupações e competências específicas. Mas não custa muito, enquanto isso, dar uma olhadinha no que ele ou ela está fazendo, se está confortável, ou se ocupando com algo interessante; ou vez por outra trocar uma idéia sobre sua própria ocupação. Isto realça um vínculo afetivo vivo. Do contrário, um desvio exagerado de atenção egoísta para os múltiplos interesses da atualidade nada mais seria do que uma fuga da relação, que não estaria mais satisfatória - ou um subterfúgio por causa de crônica dificuldade afetiva.

Claro, hoje mais do que nunca, devemos ter em mente um vôo para a qualidade na seleção do que nos atrai. Sim, isto para não sermos complacentes com os que tentam nos transformar em terminais passivos de uma rede de bobagens, tolos consumidores de estímulos culturais massificados e de baixo nível, escravos apáticos de novidades tecnológicas. Ao contrário, se a libido conseguir ir mais para o lado do amor do que ser capturada pela distração vazia, o casal no mundo pós-moderno pode não só se defender do assédio dos estímulos, como também se constituir numa resistência humanista contra todo tipo de manipulação.

 
 
 

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