Psicanálise - Paulo Sternick
 
Dr. Paulo Sternick

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Psicanálise Paulo Sternick
 
Solitários, mas egoístas  
Muitos homens e mulheres – entre eles pessoas jovens e bonitas – se queixam hoje da dificuldade de manter uma relação amorosa séria e consistente. Isto soa surpreendente e contraditório numa atualidade que oferece tantas oportunidades de comunicação e encontro, em intensidade que talvez nunca tenha existido em outras épocas. Será esta oferta abundante de chances, dispersando a atenção, e seduzindo com ilusão de fartura, o fator que distrai a concentração da procura do amor único e singular? Talvez. Mas há relatos de outras causas, aliás, uma porção delas, e algumas até meio extravagantes. Há mulheres que reclamam do excesso de gays, como se os homens fossem uma espécie em extinção. Mas as estatísticas apontam a existência de apenas dez por cento em ambos os sexos.  E os homens estão sempre mencionando desculpas onde não falta a acusação de que as mulheres andam fáceis demais - como se eles não desfrutassem desta generosidade. 

Que o espírito do tempo, com sua pressa e avidez, não favorece o amor não deixa de ser verdade. Estamos mais para um fast love do que para um conhecimento singelo e curtido propício a promover o encontro de duas almas, com suas carências e aspirações de satisfação mútua e construção de uma vida comum, com base na renúncia dos desejos egoístas e na superação da intolerância ao outro. Mas as dispersões da atualidade só capturam quem não desenvolve em si a capacidade de amar, ou não supera esta incapacidade. Pouco se atenta para o fato de que há pessoas que não são aptas para o amor, porque nasceram assim (limitação inata) - mas isto pode ser minorado por uma boa relação com os pais, ou fazendo psicanálise. O poeta Percy Shelley (1792-1822) dizia que há pessoas imunes ao canto (immunes to song).  E há os que não são aptos para amar por excesso de narcisismo, de medo, ódio, intolerância ou inveja. O psicanalista W. R. Bion, em suas conjeturas, dizia que até o amor pode inibir o amor.

O amor inibindo o amor é uma formulação formidável e intrigante, que não se pode compreende-la precipitadamente, é conveniente deixa-la assim no ar, para pensar - um pensamento que não quer calar. Embora esta seja uma época que convida as pessoas a não pensar muito além das superficialidades. Há, em nossa volta, uma cultura meio histérica, de exibicionismos, mulheres vaidosas que adoram despertar paixões e não assumi-las, assim pelo mero prazer de se sentirem desejadas, ao mesmo tempo em que reclamam de solidão e falta de companheiro. E homens conquistadores e orgulhosos de suas façanhas sexuais, mas de estreitos e curtos horizontes afetivos. Paradoxalmente, eles e elas se queixam de falta de relacionamento. Muitos por falta mesmo de sorte e sintonia, outros por obstáculos internos ou sem perceber que carregam espécie de estranha e inadvertida instância crítica interna adversa à existência do amor.   

Portanto, as dificuldades amorosas da atualidade têm um pé na cultura e outro no indivíduo. Mas um causa o outro, e, com certeza, seres apressados, superficiais e vazios não se credenciam a amar e serem amados com facilidade, pelo menos por pessoas mais exigentes. Porém, em qual ponto termina a exigência e começa a idealização? A ilusão e a fantasia infantil de encontrar o ser amado perfeito? Por acaso viram-se muitos filmes de Hollywood, aqueles com final feliz (happy end)? Pois os critérios que muitas pessoas sustentam para conseguir gostar de alguém as indicam muito mais para a intolerância do que para o amor. Por isso, há os que ficam sozinhos ( com seus fast lovers vez ou outra) , maiores abandonados, não raro excelentes profissionais capazes de constituir patrimônio. Mas não conseguem alcançar o bonito espírito do Salmo 127 - subtraindo-o de seu aspecto religioso, assim poderíamos reescreve-lo: trabalham em vão aqueles que erguem uma casa que não tenha sido pelo amor construída. (texto original enviado para publicação na minha seção em “Caras”, desta semana).
 
 
 

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